Vantagens e desvantagens do teletrabalho

A primeira vantagem que qualquer um de nós irá apontar ao regime de teletrabalho será o da poupança de tempo e dinheiro em deslocações. Sem dúvida. Mesmo que não nos encontremos nesse regime. A maior parte das pessoas que conheço em teletrabalho foi o que disse de imediato. Por outro lado, esta vantagem acarreta um inconveniente que pode não ser tão imediato. Deixar de ter o tempo privado, para o bem e para o mal, o “nosso tempo”. Aquele em que, estando sós, pensamos sobre o dia e sobre a noite, sobre a vida e a morte, quando a alternativa é ir a 50 km/hora ou menos, em filas intermináveis e os pensamentos, agradáveis ou nem por isso, aproveitam para ocupar o seu espaço, e reorganizar o nosso sistema mental de deliberação e decisão, ainda que não o queiramos ou não o consigamos percecionar. Porque a alternativa é rara. Algumas das decisões importantes que tomei foi ao volante. Quais apofenias emergentes. A propósito disto, relembro uma amiga que tomou a decisão de se divorciar neste contexto. Numa das muitas viagens para o trabalho. Porque, segundo ela, “tinha tido tempo para pensar”.

Quando pedi que me apontassem os fatores negativos de se encontrarem em teletrabalho, uma situação nova, em contexto de pandemia, uma situação única, excecional, todos foram unânimes. Também. Apontaram a questão da miscigenação do meio laboral com o meio pessoal. E é esta interligação que pode, de uma forma demasiado simples, tornar-se tóxica. Muito facilmente. Estivemos em situação de emergência, em estado de calamidade pública, tivemos uma primeira vaga e de repente, ainda estávamos a começar a respirar ar puro e entrámos na segunda vaga. E não deixamos de estar confinados. Mantemo-nos com restrições importantes. E mantemos a situação de teletrabalho. Em análise, a intrusividade que o trabalho exerce no meio familiar, pessoal e íntimo é inquestionável. Como um ladrão que “furta” tempo, espaço e relações interpessoais com aqueles que nos dizem mais por partilharem a vida connosco.

Como lidamos com o novo paradigma do teletrabalho?

E como se pode materializar esta situação de forma disfuncional, ou mesmo patológica? Pela perda das barreiras. A perda da equidade que todos temos relativamente ao que fica de fora do espaço laboral e ao que neste deixamos entrar. Se vivemos sós. Se temos filhos. Se vivemos com os pais. Se a casa é grande ou pequena. Se temos internet e de que tipo. No fundo, a perda de reserva da vida privada. Passamos a ser, no meio laboral, todos diferentes ao nível pessoal, que o somos, mas agora este fica exposto. Numa reunião em videochamada é fácil perceber como essa exposição pode acontecer. Não esqueçamos que estamos numa situação em que o teletrabalho foi imposto. Não foi uma opção. E assim sendo, o trabalhador fica sem alternativa.

Claro que a entidade patronal deverá ter isso em conta. Mas para tal, ainda assim, o trabalhador terá que se expor. Expor as suas dificuldades e situação pessoal, familiar. A sua privacidade. Ainda que esta passe por ser apenas o facto de ter um cão que não o deixa estar sossegado numa videochamada. Para não falar em crianças em ensino escolar. E nos familiares idosos que não tem outra pessoa a quem recorrer para ir às compras. Numa situação de pandemia, todas essas variáveis são acrescentadas ao tempo. E muitas vezes o tempo que o trabalhador tem para ler os muitos emails que recebe diariamente ou agendamentos semanais de reuniões, é durante a noite. Quando, por fim, tem tempo para ter tempo para o trabalho. Não tendo tempo para si.

Teletrabalho

 

A perceção que algumas pessoas têm é de que despendem muito mais tempo a fazer as tarefas. Tem mais reuniões. Trabalham muito mais horas. Além de que sentem muito mais dificuldade em conciliar horários para colaboração em projetos quando estes lhes são exigidos. E terão que ser realizados. O que acresce mais fatores de stress. Stress que muitas vezes poderia ser atenuado com uma conversa com um colega ou com o líder do projeto. Uma situação tão simples, que hoje se tornou uma tarefa impossível. Os pequenos intervalos para o café e partilha de informação, de experiências ou mesmo apenas de falar sobre o tempo ou um par de sapatos que acabámos de ver num site novo.

Quais as consequências do assédio moral ou mobbing?

E não será difícil antecipar as situações criadas como terreno fértil para o surgimento de situações de assédio moral ou mobbing. Enquanto ato, o mobbing tem características específicas que colocam este fenómeno à escala mundial, comum em empresas, escritórios ou outros meios laborais. As consequências para os trabalhadores alvo podem ser graves e permanentes. A produtividade profissional é afetada, o que faz com que estes casos sejam muitas vezes ignorados, sendo que o trabalhador acaba por ser vítima da “agressão” da qual é alvo, podendo mesmo ver-se numa situação de despedimento. Este fenómeno é comumente negligenciado. Stress, ansiedade, perturbações de sono, baixa autoestima e, eventualmente, depressão ou comportamentos autolesivos ou autodestrutivos, podendo mesmo chegar ao suicídio, ou, no limite, ao homicídio, são efeitos inequivocamente negativos do mobbing.

O mobbing, como o assédio moral que ocorre no local de trabalho, não esquecendo nós que o local de trabalho a que nos estamos a referir, é “a nossa casa” em contexto de pandemia, pode, em essência, ser predatório ou competitivo.

O primeiro pode surgir apenas por razões conjunturais, em prol de uma gestão “firme”, como é o caso de uma reestruturação organizacional. E aqui temos a figura típica do “chefe”, a quem teremos que obedecer, por muito inalcançáveis que sejam as exigências. É assim fácil perceber que algumas práticas assumidas como o exercício de um estilo de gestão “firme” podem transformar-se em situações de assédio moral. Isto na ausência de políticas de prevenção e de punição das hierarquias, torna este tipo de comportamentos recorrentes, porque impunes, podendo assim livremente perpetuar-se.

O assédio predatório, em situação de teletrabalho, pode ocorrer em “direto”, em reunião por videochamada, mediante a humilhação do trabalhador, com uma “chamada de atenção” pública. Muitas vezes em situações de incumprimento de prazos pré determinados, mas difíceis, ou mesmo impossíveis de alcançar por todos os “corpos estranhos”, de cariz pessoal, que passaram a integrar a equação “trabalho”. Imaginemos este cenário quando o trabalhador não se encontra em situação de privacidade, pois tem familiares que não conseguem deixar de presenciar a situação. Nem todas as pessoas têm condições para ter um “escritório em casa”. Também pode ocorrer em “diferido”, mediante a utilização de plataformas em que o trabalhador está a ser monitorizado nas tarefas que executa e que muitas vezes são realizadas em horas “inapropriadas”, podendo ocasionar a aplicação de práticas punitivas discricionárias.

Mobbing

 

Acresce a isto a possibilidade do assédio moral poder ser competitivo, mais exercido pelos pares, baseado numa disputa ou conflito, quando situações que resultam numa contenda interpessoal de natureza laboral não são adequadamente resolvidas, podendo, assim, vir a envolver comportamentos de retaliação. Esta situação pode materializar-se em difamação ou ao ignorar o trabalhador, não o convocando para reuniões, em agressões psicológicas com verbalizações desadequadas ou jocosas, como fazer insinuações de cariz sexual, queixas aos superiores ou colegas, ou o recurso a intrigas palacianas, tão típicas de certos meios. Enfim, todo um périplo de comportamentos de mobbing que podem ocorrer, em direto, da e na nossa casa, com os nossos mais queridos a presenciar. Como uma violação assistida. No extremo das comparações possíveis.  

Como ultrapassar um contexto de mobbing?

São assim, todas estas relações perigosas que podem facilitar o surgimento de mobbing na situação de pandemia. Não devemos nunca esquecer que por detrás de todos os trabalhadores e profissionais, estejam ou não nivelados na hierarquia, com mais ou menos responsabilidade, encontram-se Pessoas. Com maior ou menor capacidade de liderança e de resiliência, com maior ou menor tolerância à frustração. Com problemas e dificuldades de relacionamento interpessoal. E com problemas profissionais que hoje se confundem com os pessoais. Sabemos que estas situações podem ser obviadas com a existência de acompanhamento e apoio psicológico nos locais de trabalho, situação que cabe aos empregadores monitorizar. Que hoje é a nossa casa. O qual poderá ser sempre conseguido por acesso remoto. 

Não querendo “psiquiatrizar” o teletrabalho, considero que todos os trabalhadores deverão saber que podem recorrer a ajuda psiquiátrica e/ou psicológica. A bem das estruturas organizacionais, pois estas dependem, tenham ou não noção disso as Pessoas que as constituem, da Saúde Mental dos profissionais. Ainda que a possam não considerar necessária. Certo é que não há saúde sem saúde mental. Independentemente do contexto.

Se está numa situação semelhante, ou conhece alguém nessas circunstâncias, contacte a Honnus! Oferecemos apoio na elaboração de perícias forenses que confirmem a situação de abuso.

Susana Almeida