Escrito em: 2025-04-01
A Honnus tem o orgulho de assinalar a publicação do livro Encontros com a Morte, da autoria do jornalista Paulo João Santos, que reúne testemunhos de profissionais, tais como D. Américo Aguiar, Paulo Sargento, Carlos Fiolhas, Francisco Ferreira e Moita Flores, cuja atividade os coloca em contacto direto com a morte.
Entre os convidados, destacamos a participação da nossa coordenadora médica, Drª. Ana Rita Pereira, que partilha a sua experiência no campo da perícia médico legal. O seu testemunho oferece uma visão única sobre o papel do médico legista na investigação da verdade e na defesa da dignidade humana, mesmo quando a vida já não está presente.
“O que a levou a escolher esta especialidade?
Quando acabei o curso de medicina, na Universidade de Coimbra, não me revia na maioria das especialidades médicas. Medicina legal, psiquiatria e saúde pública eram aquelas com as quais mais me identificava, que no fundo são especialidades pouco convencionais quando se pretende vir a ser médico.
A medicina legal é uma especialidade com contornos um pouco distintos das restantes áreas médicas, sobretudo porque lida com a morte de uma forma muito direta, mas não só: abusos sexuais, agressões, homicídios ou sinistralidade, são o seu dia a dia, onde o raciocínio médico-legal é muito distinto do habitual raciocínio médico.
O objetivo final não é a cura ou tratamento daquela pessoa em concreto (falecida ou viva) mas avaliar de quem é a responsabilidade de determinado evento, como a morte ou o acidente, por exemplo. Mas mais do que isso, é a especialidade médica que, por excelência, faz a interface entre a Medicina e o Direito. Ou seja, os nossos relatórios permitem que se aplique o conhecimento médico em prol da justiça e dos sistemas sociais de proteção como a segurança social ou caixa geral de aposentações.
No fundo, a medicina legal cuida de quem fica: os familiares nos casos de morte, mas também ajuda as vítimas sobreviventes a que se faça justiça. Permite que um sinistrado seja avaliado e que receba a respetiva indemnização para compensar o dano resultante do acidente de que foi lesado, ou que uma vítima de agressão ou abuso possa ver o respetivo agressor acusado do crime que cometeu.
É uma especialidade multidisciplinar, exigindo um trabalho em equipa com polícias, assistentes sociais, laboratórios de ciências forenses e sistema judicial. Muitas das vezes o puzzle só se completa, quando estas áreas se complementam, permitindo que seja descoberta a verdade e se faça justiça. Este foi outro dos motivos que me levou até à medicina legal: a descoberta da verdade.
(...)
Alguma vez sentiu medo? (Se sim, como o ultrapassou)?
Tenho de confessar que sou uma mulher relativamente corajosa. Obviamente que tenho medos, mas a morte não é propriamente um deles.
Apenas me recordo que uma vez ao descer para o andar onde é feita a receção dos cadáveres, tive que usar o elevador sozinha, juntamente com um cadáver, e esse momento foi deveras impactante. Tive que me abstrair e ver aquela pessoa simplesmente como um corpo inerte.
Quando escolhi medicina legal não sabia bem para o que ia, foi uma descoberta diária. Iniciei a especialidade como médica interna no instituto de medicina legal em Lisboa, local do país onde mais se fazem mais autópsias - na altura entre seis a dez autópsias por dia - distribuídas pelos vários médicos.
Lembro-me que nas primeiras semanas, quando estava ainda na fase de preencher o manuscrito que viria a dar origem ao relatório da autópsia, às vezes bloqueava, a olhar para aquele cenário, que é um bocadinho assustador: a sala de autópsias de Lisboa é um espaço amplo com muita luz natural, mas com várias mesas de autópsia e o cenário pode parecer um pouco surreal. Veem-se três ou quatro corpos a serem abertos, ao mesmo tempo, pelos médicos legistas e respetivos técnicos, em diferentes fases da autópsia: uns a abrir a cabeça, outros na parte do abdómen, com mais sangue, menos sangue... No início dizia para mim mesma: “Parece que estou num talho... que especialidade esta?…”. Mas passados um ou dois meses habituei-me.
Perdi o olfato, grande parte na medicina legal, o resto com a Covid. Os cadáveres têm vários cheiros, consoante o seu estado. Há uns, que têm o cheiro normal a cadáver (a carne viva ou fresca). Mas depois temos os cadáveres que estão queimados ou os que estão “podres” (em avançado estado de decomposição), e estes são horríveis, têm um cheiro nauseabundo. Quando abrimos o intestino, se houver fezes, também vamos sentir esse cheiro. Depois há os cadáveres que vêm com pulgas e às vezes temos de andar a “fugir” delas. É todo um cenário muito diferente do habitual contexto médico tradicional.
Assim, acredito que os médicos legistas e os profissionais que trabalham nesta área deveriam ter apoio psicológico. Passar cinco ou dez anos a fazer autópsias de forma diária e o facto de estes “contarem” histórias, muitas vezes, nada agradáveis - histórias de abusos a crianças, violações, homicídios, “mulas” - é muito complexo.
Tenho a convicção de quem escolhe esta área e para evitar perder a sua saúde mental, tem de estar muito bem consigo próprio, porque de facto, lida-se com áreas muito negras do ser humano. Às vezes até nos faz pensar que a realidade é aquela, que todas as pessoas são assim, mas no fundo não, estamos apenas a contactar com uma pequena parte da realidade altamente enviesada. É uma especialidade que implica bastante estofo psíquico.
(...)
O facto de ser médica legista alterou a sua forma de ver a morte?
Sim, sem dúvida. Costumo partilhar com as pessoas que me perguntam como consigo lidar com a morte diariamente, que no budismo aconselham que se lide com a morte várias vezes ao dia para aprender a enfrentar a morte. No fundo, também acredito nesta prática, pois permite valorizar mais a vida e contribuir para a consciência diária que a vida só existe quando existe a morte. Uma e a outra são indissociáveis.
No Ocidente criou-se este tabu e medo à volta da morte, mas no fundo, a nossa existência é mais interessante, consciente e válida se soubermos que o fim é imprevisível e nada dura para sempre. Talvez as relações entre os homo sapiens e entre estes e a Natureza fossem mais pacíficas e sustentáveis se estas verdades estivessem mais presentes. Na história da Humanidade cada um de nós constitui apenas uma micro parte dessa história, apesar de acharmo-nos mais do que isso. Considero que estamos muito focados em nós e pouco no todo.
Outra coisa que aprendi ao lidar com a morte foi concluir que todos acabamos da mesma forma, independentemente do género, estatuto social ou profissão. Ou seja, independentemente da vida que cada pessoa tenha vivido, na mesa de autópsia somos todos iguais. E essa perspetiva é muito interessante.
No fundo, penso que é um privilégio ter esta experiência como legista: lidar com a morte mas também com o pior da sociedade como homicídios, pedofilia ou grandes sinistrados. Fiquei a dar mais valor a tudo o que faço e conhecer melhor as minhas verdadeiras prioridades.
Há alguma autópsia que a tenha marcado?
Lembro-me da primeira autópsia em que participei, de uma mulher morta pelo companheiro, no instituto de medicina legal em Lisboa. O método usado tinha sido uma arma branca por isso, o cadáver apresentava múltiplas lesões cortantes sobretudo no tórax. Este fenómeno de haver mais lesões para além daquelas que são necessárias para provocar a morte, é bastante comum nos casos de homicídios nas relações de intimidade, o que demonstra a agressividade e raiva acumulada dos agressores.
Ao 2º e 3º caso (incluindo um deles em que o marido se suicidou depois de ter morto a mulher), decidi investigar e fui estudar todos os homicídios nas relações de intimidade em Portugal (incluindo algumas relações com prostitutas) e analisar as respetivas sentenças judiciais.
A conclusão mais interessante, a meu ver, foi o facto de a grande maioria destas mortes, hipoteticamente, poder ser evitada pois já havia história de violência doméstica prévia. Ou seja, aquela mulher já tinha passado por alguma entidade oficial como hospital, medicina legal ou polícia, e nada eficiente tinha sido feito para evitar aquela morte.
O maior mistério da vida é saber se continua depois da morte. Qual é a sua convicção e porquê?
Bem, isso é uma questão muito pouco convencional :)
Neste momento, acredito na reencarnação e que, para além, do nosso corpo físico e da nossa mente, temos uma alma que nos preenche. Ao olhar os cadáveres, uma coisa é certa, já só resta o corpo físico inerte... enquanto a alma já não está naquele corpo.
Se houvesse uma alma, um espírito, o que lhe quisermos chamar, qual a zona do corpo onde acha que se poderia encontrar?
Acredito que a comunicação com a alma de cada pessoa é feita através dos olhos. Através dos olhos conseguimos saber muito sobre determinada pessoa. Mas a alma, para mim, é a aura de cada pessoa. Por isso se tiver que escolher uma zona do corpo diria que é a energia que a pessoa transporta e está em cada célula do corpo!”
Para ler integralmente o testemunho da Drª. Ana Rita e de todos os outros convidados, pode adquirir o seu exemplar nas livrarias ou comprar online:
A participação da Drª. Ana Rita neste projeto reflete os valores centrais da Honnus, como rigor técnico, ética profissional e compromisso humano com a justiça. Trabalhamos diariamente para oferecer pareceres médicos independentes e fundamentados, respeitando a complexidade de cada caso e a história de cada pessoa.
Encontros com a Morte é um livro corajoso, que nos convida a olhar para a morte com honestidade, empatia e respeito, e assim, também para a vida.
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