João Nascimento | Médico Legista

A segunda metade do século XX e o início do século XXI representam, prevalentemente, um período de paz e união para o continente europeu. Estas décadas de prosperidade, sem conflitos de larga escala, são um oásis na História de disputa, privação e sacrifício da Europa. 

A pandemia da COVID-19 apresenta-se, então, para várias gerações, como a primeira grande crise, afetando os hábitos e tradições e condicionado as liberdades de milhões. Apesar da sua origem na China, é no Velho Continente que se encontra atualmente o epicentro da pandemia, com a Europa a contabilizar cerca de metade do número de infetados e dois terços dos mortos a nível mundial. É inevitável traçar o paralelo com os tempos de guerra e colocarmo-nos na pele dos nossos antepassados, talvez agora sentindo algo aproximado à adversidade e sofrimento dessas eras.

 

Para lidar com a ameaça à saúde pública, alguns países aplicaram uma estratégia de testagem e isolamento seletivo enquanto outros adotaram uma política de isolamento geral

A execução do primeiro método requer uma grande capacidade de resposta das entidades governamentais e de saúde e, fundamentalmente, um grande número de testes diagnósticos de alta fiabilidade. Países como a Coreia do Sul realizaram essa testagem em massa e conseguiram identificar os focos de infeção, isolando-os seletivamente e permitindo à restante população continuar a circular e trabalhar. 

No entanto, a limitada oferta e a grande procura de testes no mercado global determina que as nações mais ricas e influentes concentrem a parte de leão dos mesmos. O nosso país não consegue competir com as nações mais poderosas, como a Alemanha e os Estados Unidos, na compra dos testes diagnósticos. pelo que estes têm de ser considerados bens escassos, a ser racionados e utilizados criteriosamente. 

Sem acesso à quantidade de testes necessários para aplicar o método de isolamento seletivo, Portugal, Espanha, Itália e a maioria dos países europeus estão, já há várias semanas, num estado de isolamento geral.

 

Cerca de um mês após ter sido decretado o Estado de Emergência em Portugal, os dados mais recentes são encorajadores. Tem-se verificado um abrandamento da taxa de crescimento de novos casos diários e há indicações de que estaremos próximos de atingir o número máximo de casos ativos. Há, no entanto, razões para acreditar que o número real de casos no país possa ser muito superior aos confirmados. Em primeiro lugar, não está a ser possível realizar testes em tempo útil, havendo relatos de demoras na marcação de colheitas de até duas semanas após o seu pedido. Adicionalmente, deve também ser considerada a elevada percentagem de infetados que não apresentam qualquer sintoma (os testes feitos à população do navio Diamond Princess indicaram 18% de portadores assintomáticos) e que, de acordo com a política atual de saúde, não serão testados.

 

Apesar destas reservas é de esperar que, a curto prazo, o Governo Português promova o regresso gradual da atividade empresarial. O consequente contacto entre clientes, colaboradores e fornecedores levará, necessariamente, a um aumento do risco de infeção pela COVID-19.

O fim do Estado de Emergência e a retoma da atividade é, assim, não o fim da luta, mas sim, o início de uma nova fase de resposta absolutamente crucial. Na ausência de medidas adequadas de combate à transmissão do vírus, um descontrolo epidemiológico levaria ao regresso ao ponto de partida e a novo isolamento geral.

As empresas são assim confrontadas com o enorme desafio de controlarem o risco de contaminação enquanto procuram desenvolver a sua atividade com a maior normalidade possível.

Como com todos os grandes desafios e obstáculos, combater e ultrapassar a crise da COVID-19 exige sacrifício, adaptação e transformação. Este é um momento em que as empresas serão testadas de muitas maneiras, às quais terão de responder com as decisões, medidas e apoio correto.

Quando possível, as empresas devem promover a realização do trabalho à distância, evitando o contacto entre os colaboradores. Nos casos em que o trabalho à distância não seja uma solução viável, deve proceder-se a uma reorganização dos postos de trabalho e promover a rotação de equipas estanques. Estas medidas confinam o risco de infeção às equipas, o que garante a produtividade e a manutenção dos postos de trabalho.

 

A Medicina do Trabalho será a responsável por gerir esta crise, dentro das empresas. Deverão ser criados e atualizados Planos de Contingência, de acordo com as recomendações da Direção-Geral da Saúde, nos quais se delineiam meios de minimização do risco de contágio. Nesses planos devem constar, por exemplo, as condições para o regresso ao trabalho em segurança de um colaborador afetado pela COVID-19 e a instauração da necessidade de proceder à desinfeção das superfícies do local de trabalho no início de cada turno.

Este é o momento para uma demonstração de compromisso para com a sociedade. A resposta das empresas à atual crise determinará a vitória ou derrota do país nesta guerra contra o vírus. À Medicina do Trabalho caberá o papel fundamental de assegurar o funcionamento das empresas e a segurança e saúde de todos.

João Nascimento | Médico Legista | Honnus

 

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